História da Missão Indígena Uniedas
Fundação da Missão

“A HISTÓRIA DO COMEÇO DA EVANGELIZAÇÃO DOS ÍNDIOS DO BRASIL ESCRITO EM UMA CARTA”

(TRADUÇÃO AO PORTUGUÊS DE UMA CARTA DO PRIMEIRO MISSIONÁRIO ENTRE OS ÍNDIOS TERENA)

 

23 BARONALD DRIVE,
GLASGOW W. 2,
ESCOTLAND,

14 DE MAIO DE 1.963

Prezado senhor,

- Já passou um tempo apreciável desde que recebi sua amável carta com tantas notícias interessantes a respeito de Bananal e do povo nessa região. Razão de eu não ter respondido não era falta de interesse, pois aquele interesse nunca há de minguar. O trabalho e os crentes são lembrados diariamente em oração, porém tenho estado na estaleira durante alguns 18 meses. Passei quase 3 meses no hospital durante o ano passado, submetendo-me a duas intervenções cirúrgicas, e tratando uma doença cardíaca. Até adoecer eu estava pregando quase todo domingo, porém desde que saí do hospital o médico não me permitiu continuar pregar. Porém, dirigi dois cultos, pois o médico não soube disto até depois de haver feito. Espero que logo estarei novamente no púlpito anunciando o glorioso evangelho que ainda é o poder de Deus para a salvação de todos os que creem. Visto que se o senhor tardar até dia 5 de Outubro, terei passado o 85 aniversário e não se pode esperar continuar o trabalho com a mesma força como quando iniciamos o trabalho em Bananal. Tanto eu, e a minha esposa, temos gozado uma saúde relativamente boa durante todos esses anos. Enquanto ela, não é tão antiga quanto eu, não é também apenas uma criança, pois em agosto passará seu 80º ano. A verdade é que gostaríamos de estar novamente entre os índios, porém sabendo que isso não é a vontade de Deus, estamos contentes em saber que encontraremos naquela terra melhor todos aqueles que foram trazidos ao salvador.

- Espero que os fatos que vou reltar a respeito da nossa vinda ao Bananal esclareçam as coisas que transcorreram nos primeiros dias de trabalho aí.

No ano de 1912 Sr. John Hay, então diretor da I.S.A.M.U., e eu fizemos uma viagem de reconhecimento, visitando muitas das aldeias dos índios terenas a fim de colher conhecimento do campo e ver possibilidade de abrir trabalho aí. Viajamos a cavalo de Concepção, Paraguai, passaando uns dois meses em viagem, Bananal era ponto principal do nosso interesse, e lá como em Ipegue e as outras aldeias visitadas, fomos cordialmente recebidos. Explicamos aos índios a finalidade da nossa visita. O capitão, Manuel Pedro(mais tarde deposto) e o povo de Bananal, estava ancioso para nós habitarmos no meio deles. Prometeram construir um prédio para servir de escola e também auxiliar-nos na construção de nossas casas. O capitão convocou o povo de Ipegue a fim de conferenciar conosco. E quando souberam dos nossos intentos, concordaram com a decisão do capitão e os homens do Bananal. Percebemos que Deus nos abrira uma porta de entrada num campo, até então, fora do alcance da mensagem do evangelho da graça redentora. Voltamos por rio, primeiro num batalhão, no rio miranda , até porto esperança, onde embarcamos num navio para Concepção, e de lá até Assunção, a capital do Paraguai, a fim de providenciar as coisas necessárias para os nossos novos planos. Mudamos nossa sede para Vilarica, de onde esperamos alcançar índios e continuar trabalhando entre os Paraguaios descrentes, enquanto esperamos um novo casal que nos havia de ajudar no novo trabalho.

Em 16 de maio de 1913, minha esposa, eu, nossa filha de apenas 3 meses e os novos missionários com seu filhinho, embarcamos de Assunção. Quando Sr. Hay e eu visitamos Bananal a estrada de ferro ainda não alcançara este ponto. Porém, quando embarcamos em Assunção, soubemos que o trem estava andando de Porto Esperança até Aquidauana. Devido enchente, não podíamos desembarcar no Porto Esperança, e fomos obrigados a continuar até Corumbá, de onde, por uma lancha rebocamos uma chata, seguimos até Miranda. Chegando a Taunay dia 30 de maio, já no escurecer, e aí passamos a noite junto com um agente e um turco.

O capitão e alguns dos seus homens vieram arranjar para a nossa entrada no meio deles. Porém, quando ouviram que não havíamos recebido permissão por escrito, da sociedade de proteção aos índios, não fomos permitidos a entrar. Não possuindo nem barraca nem casa onde poderíamos no abrigar, fomos obrigados a improvisarmos abrigo de lençóis e cobertores enquanto eu tentava negociar com os oficiais em Aquidauana e no Rio de Janeiro. Achamos numa situação altamente indesejável, pois muitos que frequentavam Taunay naquela época eram bandidos, e fui obrigado passar diversas noites em Aquidauana esperando licença. A razão principal de não sermos recebidos pelos índios era que desde a nossa visita no ano anterior, o governo havia prometido mandar um professor. Disseram-nos que visto que o governo estava para mandar um professor, não havia mais necessidade de nossa presença. Porém o Deus que nos chamou estava nos guiando em todos os passos

Quando chegou a licença nós e nossa bagagem, fomos depossitados num casebre, e desde aquele dia, a luta contra as forças malignas nunca cessou. Logo depois que entramos, recebemos casas melhores e abrimos uma escola. Jorge Pio, que morava no alto da rua principal, mui bondosamente nos emprestou a sua casa. Foi ali que iniciamos a nossa escola, e logo em seguida iniciamos uma escola oturna para adultos, ambos sendo bem frequentada. Então começaram-se os cultos evangélicos. No princípio, havia uma frequência muito resumida, mas pouco a pouco os números aumentaram. Ainda a batalha não era vencida, porém o senhor começou a abençoar a semente que havia sido lançada, e depois de algum tempo, alguns não só ficaram interessados na salvação das suas almas mas havendo aceito Cristo como seu salvador, tomaram uma nova atitude na sua vida.

Apesar do fato que diversas vezes a terra em que deveria ser construída as nossas casas foi medida a licença era cada vez cancelada. Perdi esperança nas suas promessas e fui a Cutapé a fim de ver a possibilidade do dono desta fazenda vender-nos um terreno suficiente para construirmos nossas casas. Não vendeu, porém nos deu, gratuitamente, a terra em que as casas da Missão são construídas. Foi por isso que fomos a esperança. Mais tarde, concedeu-nos um terreno em Taunay a fim de construir uma igreja, junto com a escritura dos dois lotes. Fui obrigado regressar a minha terra antes que pudesse fazer mais em Taunay além de marcar o terreno.

Depois de receber a terra da Esperança, encerramos as aulas a fim de construir as casas. Os cultos, porém, não foram interrompidos e a classe da Bíblia e a classe de canto não cessaram. Já estávamos realizando cultos em Ipegue e foram bem frequentados. Fato é que apesar de não ter conversões o interesse era tão grande que o povo de Ipegue considerou a possibilidade de construir uma igreja para os cultos que realizamos todo domingo á tarde.
O trabalho de Bananal progredia continuamente, e diversos manifestaram sua fé em cristo. Resolvemos realizar nosso primeiro batismo. Os que consideramos prontos estavam sendo instruídos quanto ao sentido verdadeiro do batismo. De uns oito que desejavam se batizar escolhemos quatro, e marcamos a data para realizar este sacramento. Um pouco antes disto o professor do governo chegou. Seu objetivo principal parecia ser caluniar os missionários e seu ensino. Pois disse aos índios que não seríamos permitido pregar em qualquer vila ou cidade brasileira, pois o nosso ensino era destinado para os mais ignorantes e depravados, tais como os índdios mais atrasados. Porém, o fogo que Deus acendeu continuou a queimar.

Vendedores de pinga continuaram a fechar seus bares quando foram transformados em suas vidas. Então apareceu um padre romano ao convite, como se dizia, do professor, com a finalidade de dar aos índios que ele havia sido mandado pelo governo. O padre rezava missa batizou muitas crianças e distribuíu medalhas aos seus adeptos. Cada vez que realizávamos um culto, ele também fazia o mesmo em oposição. A frequência dos nossos cultos diminuiu um pouco, porém os crentes permaneceram firmes.

No dia anteriormente escolhido para o sacramento do batismo, batizamos publicamente os quatro na presença de um grande número de espectadores, tanto incrédulos, como interessados, Jorgina Lili foi a primeira e depois a esposa de Henrique Pereira, Honório Massi e finalmente Henrique mesmo. Todos estes deram testemunho vivo antes de serem batizados. Então domingo, dia 31 de dezembro de 1915, foi constituída a primeira igreja indígena evangélica em todo o Brasil. Depois disso celebramos o sacramento da ceia do Senhor. É um dia a ser lembrado, não somente na terra, mas estamos persuadidos, que está escrito no céu a fim de ser festejado durante toda a eternidade.

Bondade dar lembranças afetuosas em amor profundo àqueles em Bananal que nos conheceram naqueles dias quando a batalha era tão terrível. Oramos por todos, para que possam estar firmes na fé, entregue uma vez para sempre ao Senhor. Que o Senhor o abençoe e guarde e o faz frutificar em toda a boa obra, estabelecida na sua palavra, com oração e abraços fervorosos, subscreve seu servo em Cristo.

Henrique Whittington